Queria escrever algo sobre os jogos de amanhã, pela penúltima rodada do campeonato Brasileiro. Porém lendo a ZH, vi esse belo texto escrito pelo colunista Mário Marcos de Souza, e resolvi posta-ló. Espero que gostem!
O QUE EXPLICA A PAIXÃO!
Mário Marcos de Souza, colunista da Zero Hora. Sábado, 28 de novembro de 2009.
Um fim de semana como este, em que quatro das maiores torcidas do país estão diretamente dominadas pelo sonho de conquistar o título do Brasileirão, faz lembrar um conto do escritor e cartunista argentino Fontanarrosa (1944 - 2007). É um texto sobre o poder transformador do futebol. Surgido como uma inocente atividade de lazer para os operários das fábricas britânicas, o esporte ganhou o mundo, conquistou corações e mentes, e virou um fenômeno, tão poderoso que muitas vezes faz uma pessoa habitualmente calma virar um hooligan disposto a tudo. Não é só. No estádio, as barreiras sociais são derrubadas a cada rodada. É o que já defini aqui, certa vez, como a utopia das arquibancadas. Não há diferentes quando os torcedores se colocam lado a lado, dominados pela mesma paixão. Lá estão, sofrendo juntos, chorando, rindo, vibrando de alegria, angustiados, o desembargador, o médico, o empresário, o operário e o desempregado. É quase uma revolução social, capaz até de unir a população de um país como percebeu, na década de 90, o sul-africano Nelson Mandela ao usar o esporte (no caso, o rúgbi) como um catalisador de uma região separada por anos de apartheid. Quando for a um estádio ou assistir a jogos decisivos como o deste domingo, preste atenção. Todos são iguais no estádio.
••••
No conto O Velho e a Árvore, Fontanarrosa (foto) fala de um campinho de futebol perto dos trilhos do trem, de uma pelada entre amigos e de um idoso que sempre aparece, acomoda-se em um banco à sombra e dali assiste aos jogos, sempre com um fone no ouvido (veja logo abaixo o vídeo sobre a história). Um dia, machucado, Soda, um dos jogadores, sai de campo e se acomoda no chão, perto daquele solitário assistente. Pergunta então o que ele está ouvindo, se é a Central Córdoba e o velho responde que não. "É um tanguinho, então?", insiste Soda, e o idoso responde então que está ouvindo música clássica, enquanto olha o futebol.
••••
Curioso, Soda pergunta então por que ele está vendo um jogo, e o senhor solitário responde que o futebol também é uma arte. Aponta então para o goleiro e passa a descrevê-lo como se fosse uma estátua, com linhas harmônicas, corpo bem feito, movimentos graciosos. Depois, descreve as camisetas, o contraste entre o amarelo de um time e o azul de outro, fala dos saltos dos jogadores na cobrança de um escanteio, o giro no ar, os movimentos, destaca os dribles, o barulho da disputa, o apito do árbitro. Em seguida, ao ver um jogador caído simulando falta, compara o gesto ao desempenho de uma peça teatral.
••••
Tudo ia bem até o momento em que o árbitro apitou um pênalti. Pronto. Para surpresa de Soda, aquele homem de gostos refinados, de ouvido educado com música clássica, capaz de descrever os movimentos de um jogador como se escrevesse um poema, salta do banco e começa a gritar ofensas, a criticar o árbitro, a xingar, a lançar suspeitas sobre a honra da mãe do apitador. Soda, então, pergunta então o que significa aquela reação e o velho responde simplesmente:
- Isso é futebol.
••••
Assim, sem grandes digressões, o personagem de Fontanarrosa explica o que fascina no esporte que neste fim de semana vai manter alguns milhões de brasileiros em estádios e diante dos aparelhos de TV. É a hora em que todos estarão unidos, sem separações, sofrendo e vibrando com seus times - mesmo que alguns esqueçam por alguns minutos, como faz o velho do conto, o lado suave de sua personalidade (não confundir com violência e ação de vândalos, isso não tem nada a ver com o esporte), como fez o velho do conto. Afinal, é futebol.
Nenhum comentário:
Postar um comentário